Porque é que a geração mais digital de sempre está a comprar discos de vinil?
Em que diferem os hábitos de consumo de vinil da Geração Z dos das gerações precedentes? Neste artigo olhamos para o que essa diferença nos diz.
Parece haver uma ironia nos números: a geração que cresceu em plena era do streaming é das que mais tem contribuído para reanimar o formato do disco de vinil. Em 2025, as vendas de discos nos Estados Unidos ultrapassaram, pela primeira vez em várias décadas, a fasquia dos mil milhões de dólares, com cerca de 47 milhões de unidades vendidas, o que representa um crescimento de 9,3% face ao ano anterior e assinala o décimo nono ano consecutivo de subida, segundo dados da Recording Industry Association of America. Por trás desta curva ascendente estão, em grande parte, os jovens da Geração Z, ou seja, pessoas nascidas após o período áureo do formato.
Mas olhemos para mais alguns dados. Um inquérito da Vinyl Alliance, realizado junto de mais de 2.500 aficionados do vinil dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, mostra que cerca de 76% dos inquiridos pertencentes à Geração Z adquirem discos pelo menos uma vez por mês, e destes, quase 29% descrevem-se como colecionadores assíduos. Noutro estudo, a Futuresource Consulting situa em cerca de 60% a fatia de jovens da Geração Z que compram discos de vinil, com a particularidade de quase 30% destes nem sequer possuir um gira-discos, um dado que nos faz pensar em quais serão as suas motivações. Já lá iremos.
Entretanto, é neste ponto que a comparação entre gerações se torna interessante. Para quem cresceu familiarizado com o vinil, o formato tem quase sempre uma carga nostálgica originária numa experiência direta, pois foi provavelmente dessa forma que ouviu os seus primeiros álbuns, descobriu os seus artistas favoritos e construiu os seus rituais de escuta. Mas para a Geração Z - nascida depois do colapso comercial do vinil face ao CD e ao streaming - essa relação é necessariamente diferente: não pode ser nostálgica no sentido puro porque não existe uma experiência pessoal a recordar.
Foi precisamente esta distinção que um estudo académico de 2016, da autoria de Steffen Lepa e Vlasis Tritakis, tentou formalizar, introduzindo o conceito de "atribuição de aura geracional", ou seja, a ideia de que os consumidores mais jovens dão um valor emocional e simbólico elevado a um formato com o qual nunca se socializaram, numa espécie de nostalgia por procuração - uma nostalgia por uma era que não chegaram a viver. A investigação de Lepa e Tritakis testou quatro possíveis mecanismos responsáveis pelo ressurgimento do vinil - o som, a experiência sensorial, a tecnostalgia e a atribuição de aura geracional. Os autores concluíram que os três primeiros mecanismos se confirmam na totalidade e o quarto apenas parcialmente (neste último teste participaram apenas 31 ouvintes, o que é considerado uma experiência preliminar). Seja como for, o que isto significa, numa leitura mais livre, é que que colecionar vinil pode ser, para um jovem de vinte anos, menos um regresso ao passado e mais uma construção da sua identidade cultural através de um objeto que os pais ou avós também usaram.
O vinil enquanto fuga ao digital e afirmação estética
Se olharmos para outro inquérito da Vinyl Alliance, constatamos que metade dos fãs de vinil da Geração Z afirma colecionar discos porque isso proporciona uma pausa na vida digital, sendo a percentagem praticamente igual nos Millennials, mas claramente mais alta do que na Geração X. A diferença é ainda maior quando se pergunta sobre bem-estar mental: 61% dos inquiridos da Geração Z diz que procura substituir hábitos digitais pela audição de vinil, numa tentativa de melhorar o seu equilíbrio emocional; nos Millennials, essa percentagem é de 53%; e na Geração X, apenas de 27%. Motivações diferentes ou simplesmente a relação inversa do tempo passado online por cada geração?
O lado estético pesa também de forma diferente consoante a faixa etária. Ainda segundo a Vinyl Alliance, 56% dos fãs de vinil da Geração Z gosta do formato pela sua estética e 37% usa os discos como elemento de decoração, chegando frequentemente a comprar um disco de vinil sem intenção de o ouvir. Entre os entrevistados citados nesse artigo, há quem modifique mensalmente a disposição dos discos pendurados na parede, tratando a coleção mais como um guarda-roupa visual do que como um arquivo sonoro. Mas a compra motivada por uma questão de preferência por um determinado artista – “fandom” - é também recorrente, e muitas vezes é uma compra que faz da audição uma intenção secundária.
Quanto às gerações mais velhas, a investigação disponível parece indicar, previsivelmente, um padrão inverso no que toca ao consumo de discos de vinil. Num artigo académico, o investigador Yiqian Guo cita alguns dados que mostram que, entre 2018 e 2019, nos Estados Unidos, os consumidores com 55 ou mais anos eram tão propensos a comprar vinil como o grupo dos 25 aos 34, mas que os primeiros o faziam por razões distintas, pois tendo nascido durante o período de maior vigor do vinil, mantêm provavelmente uma nostalgia genuína, resultante de vivências pessoais. Para estes, a música e as suas emoções é o fio condutor, vindo os outros aspetos ligados ao colecionismo em segundo lugar. Este é o contraste central que atravessa todo o fenómeno: colecionar vinil significa coisas diferentes consoante se trate de recuperar uma memória real, construir uma ligação simbólica a um passado que não foi vivido ou encontrar um escape ao domínio digital da vida moderna. E é precisamente por isso que o vinil é o formato com maior potencial para promover um encontro de gerações.
Nota:
Geração X - nascidos aproximadamente entre 1965 e 1980
Millenials - nascidos aproximadamente entre 1980 e 1995
Geração Z - nascidos aproximadamente entre 1995 e 2010
Fontes consultadas
- CNN (14 dez. 2025). Gen Z's search for decorative collectibles is fueling vinyl sales. https://www.cnn.com/2025/12/14/business/vinyl-collectible-gen-z
- Guo, Y. (2023). The Comeback of the Medium: The History and Contemporary Revival of the Vinyl Record Industry. SHS Web of Conferences, 155, 02015 (conferência SDMC 2022). https://doi.org/10.1051/shsconf/202315502015.
- Lepa, S. & Tritakis, V. (2016). Not Every Vinyl Retromaniac is a Nostalgic: A social experiment on the pleasures of record listening in the digital age. medien & zeit, 4/2016, pp. 16-30. https://www.researchgate.net/publication/311101365.
- MusicRadar (30 jan. 2025), Griffiths, D. "It provides a break from digital life": Vinyl is back and it's all thanks to Gen Z. https://www.musicradar.com/music-industry/it-provides-a-break-from-digital-life-vinyl-is-back-and-its-all-thanks-to-gen-z
- RIAA (17 mar. 2026). 2025 Year-End Recorded Music Revenue Report. https://www.riaa.com/wp-content/uploads/2026/03/RIAA-Year-End-Revenue-2025.pdf
- Vinyl Alliance (2025). Gen Z & Vinyl Report. Consultado através do comunicado de imprensa reproduzido em Record of the Day (28 jan. 2025), e não no relatório completo. https://www.recordoftheday.com/news-and-press/from-revival-to-renaissance-how-gen-z-is-redefining-vinyl-in-the-modern-era
- What Hi-Fi? (2026). Gen Z is having more of an impact on physical sales than you might think (dados da Futuresource Consulting). https://www.whathifi.com/hi-fi/vinyl/gen-z-is-having-more-of-an-impact-on-physical-sales-than-you-might-think