Discos que colecionam pessoas: o lado B da história
O percurso individual de cada disco de vinil conta uma história única e já vai sendo tempo de os colecionadores lhe darem um pouco mais de atenção. Conheça os motivos.
A música que ouvimos participa na autoconstrução da nossa individualidade. Por isso, tal como os anéis de crescimento no tronco de uma árvore, as coleções de discos de vinil que fazemos contam também uma história, mostrando a nossa personalidade e o nosso percurso enquanto pessoas. Mas este é apenas o lado A da história.
Os discos também têm um percurso “pessoal”. Este percurso pode começar com a prensagem e a impressão dos elementos gráficos que acompanham o disco, momentos em que por vezes ocorrem erros que passam a fazer parte da individualidade do objeto. Mas, mais frequentemente, a história particular de um fonograma começa na fase da distribuição. É aqui que os destinos de cópias essencialmente idênticas começam a divergir: diferentes destinos originarão diferentes "histórias de vida".
Chegados aos pontos de venda, uma prática tão antiga quanto a comercialização dos próprios fonogramas deixa literalmente a sua marca nos mesmos, ou pelo menos assim foi durante o período áureo do disco de vinil. Falamos da imposição das etiquetas das casas comerciais, os chamados "hype stickers". Os comerciantes aproveitam os produtos que vendem para publicitar o seu negócio e, tal como os discos ou cassetes que lhes servem de suporte, estas etiquetas capturam a energia e a cultura do seu tempo através do design e da informação impressa que apresentam.
Após a compra nos retalhistas, começa a fase mais enriquecedora na vida dos fonogramas. Conhecem o primeiro dono e o seu futuro aspeto começa a tomar forma consoante o manuseamento e armazenamento que lhes são dados. Eventualmente, recebem uma pequena etiqueta com um número de arquivo... A partir daí, tudo é possível. Podem ficar esquecidos durante décadas ou trocar de mãos até acabarem a milhares de quilómetros de onde foram originalmente vendidos, levando um eventual caçador de vinil a perguntar-se, enquanto vasculha um caixote: "como raio é que este disco veio aqui parar?"
O percurso individual de um fonograma tende a diluir-se no tempo.
Teria sido interessante se se tivesse generalizado o hábito de registar num papel os dados de aquisição de um disco e de o guardar dentro da capa do mesmo. Um novo proprietário poderia acrescentar e dar seguimento ao registo do percurso do objeto, valorizando a sua história. Esta prática, de certa forma, existiu, apesar de involuntária, como o testemunham as abundantes e muitas vezes odiadas assinaturas e dedicatórias que se encontram nas capas dos discos que circulam no mercado secundário. E contudo, esses escritos fornecem informações muito interessantes do ponto de vista sociológico, justapondo géneros musicais, práticas de sociabilidade, áreas geográficas e períodos temporais. Ajudam, enfim, a conhecer melhor a "biografia" de cada disco.
Sim, os discos colecionam pessoas tanto quanto as pessoas colecionam discos e ambos se moldam mutuamente. Com o passar do tempo, a longevidade de uns tende a ultrapassar a de outros, pelo que vai sendo altura de prestar mais atenção ao lado B da história, o lado que, numa perspetiva mais alargada, ainda está por ouvir.
Crédito fotográfico: William P. Gottlieb